quinta-feira, 8 de outubro de 2009






Quando se está verdadeiramente só,
é a morte. Ao mesmo tempo
não consigo imaginar o que seja a verdadeira solidão.
Talvez pensá-la.
A vida na cidade,
e não apenas no Pacífico Sul,
cheia de metáforas, de espelhos, de simulacros,
de coisas que nunca foram coisas,
aborrece-me de morte.
A nossa vida de cidadãos mudou muito desde a
última vez que o circo chegou à cidade.
Ainda ontem encomendámos o jantar pela internet e
depois comêmo-lo, a pensar que coisas ainda com o lastro de coisas
estavam realmente naquela embalagem de cartão do fast food, que
encomendámos sem dizer uma só palavra.
O rapaz da motocicleta pareceu-nos ainda real. Até
que disse uma palavra de plástico, e depois outra, ainda mais uma, foram três
as palavras que proferiu sem sequer as dizer,
até pensámos que era um ser destinado para aquele ofício,
os mortos-vivos nunca têm acidentes de viação.
Só quando já ao descer das escadas olhou para trás,
se percebeu naquele vislumbre
uma humanidade qualquer
que nos deixou incomodados.
E enquanto mastigávamos aquilo que
não era mais do que o simulacro de uma matéria
cuja memória ainda nos habitava,
uma lembrança de um cheiro,
de um sabor,
de um pedaço de vento particular,
começámos os dois a chorar,
um choro incontrolado,
dissémos em uníssono,
as coisas que nunca foram verdadeiramente coisas tendem para a
solidão. Falta-lhes a matéria,
a sensibilidade do corpo a corpo.
Não tinhamos descoberto nada de especial.
A nossa vida continuava a ser aquela vacuidade
de sempre.
Não tinhamos visto nenhuma estrela,
nenhum cometa,
nenhum pó de céu,
muito menos o deus-menino,
mas sentimos aquilo como uma revelação.
As coisas que nunca foram verdadeiramente coisas, tendem para a solidão.
Não há nada como a alegria de uma ideia, o prazer de
uma revelação.
As coisas que há nas coisas são como mnemónicas,
lastros,
coisas que ficam penduradas noutras coisas,
e assim,
irremediavelmente acompanhadas.
Não há verdadeira solidão quando se vive.
Há a ideia generalizada de que o poema necessita de alguma tristeza
para ser verdadeira poesia,
mas isso é um defeito com que a nossa ideia de poesia
contamina o poema. É mais um simulacro,
a juntar-se aos mil de milhões de simulacros,
que fazem tender a nossa vida para a verdadeira solidão.

1 comentário:

  1. É pena ter-se uma vida de simulacros, apenas. Acontecem coisas lindas lá fora. Como a beleza furiosa dum abalroamento por um tsunami que nos empurra para o fundo do mar. Talvez só nos salvem duma vida de alheamento, as estrelas do mar.

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