sexta-feira, 9 de outubro de 2009






Quando recuperei os sentidos tinha perdido completamente a noção do lugar. A própria ideia de lugar. Veio-me apenas esta frase estranha,
Algures no Pacífico Sul.
Gosto de me entregar às frases estranhas .
É uma forma de me aventurar. É a pouca maneira e
modo da minha vida se aventurar,
agora.
O meu Pacífico Sul não tem bancos de corais,
ventos e tempestades do demónio.
E é em Lisboa.
São dois braços com o formato de duas tenazes,
Enquanto me abraçam,
perdem-me,
no Pacífico Sul,
o Tejo à minha frente.
Sempre ele e eu um diante do outro,
perco-me nele como
me ausento deste lugar onde não estou,
estaria,
nunca estive,
estarei,
por vezes pergunto-me: isto ainda é a minha vida?
e depois,
na alteridade que o solilóquio de uma alma penada admite, repito:
isto ainda é a tua vida?
Não sei de nenhuma rota, de nenhuma linha do horizonte,
o sextante,
a bússola,
o próprio mapa,
perdi-os na feira da ladra,
escondidos numa pequena caixa de madrepérola que deixei
num antiquário, a troco de duas moedas.
Eram duas.
(São sempre duas as moedas da minha vida.)
Cara ou coroa.
Duas faces,
dois estados de alma,
(São sempre aos pares os sentimentos a que me atrevo.)
nunca tive nada de único, de profundamente original
na minha vida:
Um dia devo ter nascido,
contaram-me,
hoje estou aqui,
é isso que sei.
Luto contra o meu desconhecimento
sobre tudo o que se mexe.
O meu mundo é um pequeno barco de papel a vogar desalmado,
no Pacífico Sul, Lisboa.

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