quarta-feira, 7 de outubro de 2009







Disse ela, tenho saudades do tempo em que vivíamos no fundo do mar.
Era verdade, fazia-lhe falta tudo, ou quase tudo o que podemos encontrar
no fundo do mar.
Os peixes-martelo, os tubarões, os minúsculos protozoários, as enguias, as moreias,
aquela tessitura frágil e sólida dos bancos de corais,
tenho saudades dos tempos em que tinhamos vinte anos e vivíamos no fundo do mar.
Lembras-te?
Ele lembrava-se, mas não podia dizer que sim. Aos vinte anos tudo parece possível,
até viver no fundo do mar.
Só depois a bronquite, a apneia, a asma,
a sinusite,
o enfartanço,
e todos aqueles problemas crónicos
de quem está continuamente exposto ao síndrome de uma vida às avessas.
Todas as noites ligavam a televisão da morte universal
no subúrbio e debicavam os míseros trezentos e sessenta e cinco avos de um ano que,
diziam,
ía ser dificil.
Vai ser duro lá na empresa, tinha começado por dizer ele,
à hora de jantar, vão despedir pessoas e as que ficarem,
vão-lhes cortar nos subsídios, nas creches,
quando ele encostou para o lado o pratinho de camarão cozido que
comprara no hipermercado.
Lembravam-se de quando eram pobres. Viam televisão a preto e branco e o marisco era o tremoço mijado pela mãe de Cristo.
Agora comiam fino. Um pratinho de camarões vermelhos e o gosto a prolongar-se no palato,
essa imensa viagem entre o palato e o esófago,
uma vida diferente pensavam, enquanto arrotavam,
seguros do progresso das suas vidas.
Ele encostou o prato para o lado. Não sem antes a olhar,
meigo, enternecido,
por conseguir ainda ver o fundo do mar quando a mirava,
envergonhado,
era para ele um sinal, aquele rubor que lhe subia à face
quando a olhava,
como se não fosse sua,
como se fosse um pedaço de estrêla.
Pensou ainda mais uma vez:
estou cansado das coisas, as coisas cansam-me. Não sabia explicar mais detalhadamente
a metafísica que lhe estalava com o cucuruto mas
soletrou o desejo,
gostava que as coisas não fossem estas coisas.
Fossem outras coisas.

1 comentário:

  1. Triste e lindo texto Essa sem esperança que afinal é uma esperança em que seja uma coisa diferente.

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